O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, anunciou um plano ambicioso para subsidiar alimentos na maior cidade dos Estados Unidos. A proposta prevê a abertura de cinco mercados com preços até 30% inferiores aos praticados no varejo tradicional, contando com um investimento público de US$ 70 milhões. O objetivo declarado é facilitar o acesso da população a itens básicos de consumo.
A iniciativa, contudo, enfrenta questionamentos imediatos sobre a viabilidade econômica e o risco de distorções no mercado. Especialistas e críticos apontam que a artificialidade nos preços pode gerar incentivos para a revenda irregular, transformando o subsídio em uma oportunidade de lucro para terceiros, em vez de um benefício direto ao consumidor final.
O risco de distorções e o precedente do Mercal
A experiência histórica serve como alerta para a administração nova-iorquina. Em 2003, o governo de Hugo Chávez implementou na Venezuela a rede Mercal, com o propósito inicial de oferecer produtos a preços reduzidos. O programa atingiu ampla adesão popular, mas rapidamente degenerou devido à criação de um mercado paralelo.
A discrepância de valores entre os produtos subsidiados e os preços de mercado fomentou a figura do bachaquero, o revendedor que explorava as diferenças de preço. O fenômeno resultou em desvios de mercadorias, compras fictícias e até contrabando para países vizinhos, como a Colômbia, esvaziando o propósito social da rede estatal.
Controles estatais e a falência do modelo
Para conter o mercado negro, o governo venezuelano impôs restrições severas sobre o consumo. Foram estabelecidos limites de compra, cronogramas baseados no número de identidade e, eventualmente, o uso de biometria para registrar transações. Essas medidas não impediram a deterioração do sistema, que viu sua participação de mercado cair drasticamente até 2014.
A presidente interina da New York City Economic Development Corporation, Jeanny Pak, indicou que a prefeitura estuda mecanismos de controle, como a implementação de uma carteirinha de acesso. A medida busca mitigar o risco de compras em massa, mas levanta debates sobre a burocratização do acesso a alimentos básicos em uma economia de mercado.
Diferenças estruturais entre Nova York e Venezuela
Apesar das semelhanças conceituais, analistas destacam que o contexto de Nova York difere substancialmente do cenário venezuelano. A cidade conta com uma rede robusta de mais de 1,1 mil mercados e 10 mil bodegas, operando em um ambiente de livre concorrência e sob fiscalização rigorosa de órgãos públicos e da imprensa.
Enquanto o Mercal estava inserido em uma economia marcada por controles cambiais, desapropriações e escassez estrutural, o projeto de Mamdani será gerido por empresas privadas. A eficácia dessa política, contudo, permanece sob escrutínio, testando se o subsídio público pode coexistir com a dinâmica de mercado sem repetir os erros de gestão observados na América Latina.
Com informações da Revista Oeste.