Um esquema internacional de fraude no mercado de trabalho remoto tem servido como uma das principais fontes de financiamento para o regime de Kim Jong-un. Investigadores identificaram que cidadãos norte-coreanos utilizam identidades roubadas e ferramentas de inteligência artificial para conquistar vagas em empresas ocidentais, desviando salários vultosos para sustentar os programas armamentistas de Pyongyang.
A engrenagem do recrutamento fraudulento
O método operacional é estruturado como uma linha de montagem industrial. Grupos especializados, como a célula identificada sob o codinome Eagle Vision, dividem tarefas entre a criação de currículos falsos, a participação em entrevistas por vídeo e a execução técnica das funções após a contratação. Para contornar barreiras linguísticas e técnicas, os operadores utilizam o ChatGPT em tempo real, transcrevendo as perguntas dos recrutadores e colando as respostas geradas pela IA durante as reuniões.
A operação é tão vasta que, em apenas três meses, um único grupo chegou a disparar mais de mil candidaturas. O sucesso dessas investidas permitiu que os norte-coreanos ocupassem posições de engenharia de software e tecnologia em companhias dos Estados Unidos e do Reino Unido, acumulando rendimentos que, em alguns casos, ultrapassam os US$ 300 mil anuais por indivíduo.
O papel dos facilitadores e as fazendas de notebooks
Para superar a barreira logística do envio de equipamentos corporativos, o regime recorre a facilitadores locais. Indivíduos em países ocidentais recebem computadores enviados pelas empresas contratantes e os mantêm conectados a redes que permitem o acesso remoto pelos operadores na Ásia. Em locais conhecidos como “fazendas de notebooks”, centenas de máquinas operam simultaneamente sob o controle de um único grupo.
O caso de Derek Goon, um programador de Ohio, ilustra a complexidade da rede. Ele atuou como facilitador e, por vezes, emprestou sua própria identidade para que os norte-coreanos pudessem passar por entrevistas. Embora tenha auferido renda durante o período, Goon acabou se tornando vítima do próprio sistema, descobrindo que seu nome foi utilizado para movimentar quase US$ 100 mil em trabalhos dos quais ele não teve participação ou controle.
Impactos financeiros e o financiamento de mísseis
A estimativa é que o ecossistema de trabalhadores digitais gere cerca de US$ 800 milhões anuais para a Coreia do Norte. O fluxo financeiro é complexo, envolvendo o uso de criptomoedas e redes de lavagem de dinheiro que conectam os ganhos obtidos no Ocidente a entidades sancionadas pelo governo norte-americano. Grande parte dessa receita é drenada diretamente para o financiamento de mísseis e tecnologias nucleares.
Autoridades dos Estados Unidos já indiciaram ou prenderam ao menos 39 pessoas ligadas a esse esquema. Contudo, a repressão é dificultada pela localização dos operadores, que se concentram majoritariamente na China, especialmente em cidades próximas à fronteira norte-coreana, além de bases na Rússia e dentro do próprio território da Coreia do Norte.
Consequências para as vítimas reais
Para cidadãos como Michael Brown, que teve sua identidade apropriada, o prejuízo vai além do financeiro. Ao tentar verificar questões previdenciárias, Brown descobriu que constava como funcionário de nove empresas diferentes em diversos estados, o que comprometeu sua capacidade de acessar serviços bancários e imobiliários. O caso expõe a vulnerabilidade de empresas e indivíduos diante de operações cibernéticas sofisticadas que utilizam a confiança do trabalho remoto como porta de entrada.
A investigação completa sobre o funcionamento da rede Eagle Vision foi publicada pelo The Wall Street Journal.
Com informações da Revista Oeste.